Publicado por: barcos na ria | 20/03/2010

Artefactos como linguagem


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Artefactos como linguagem

Object artifact, image artifacts and conceptual artifacts: beyond the object into the event.

Etelvina Almeida

Existem vários estudos sobre o termo e significado da palavra artefacto, sobre o entendimento que os estudiosos, os utilizadores e os designers têm dele. Cada interveniente, tanto na criação como na utilização, tem um entendimento diferente sobre o artefacto.

Segundo F.Smith Qwen[1], no seu artigo para a revista “artifact”um objecto artefacto pode ser estudado e analisado segundo vários pontos de vista: por um antropólogo, ele é visto como algo criado, modificado ou usado pelo homem; um historiador insere-o em dois níveis: primeiro, um objecto resultante de um trabalho artístico; segundo, um objecto simples e mundano; para um web designer, ele associa-se a dois conceitos, inseridos na ciência cognitiva; primeiro está ligado ao campo de estudo da HCI (human computer interaction), em que o centro de estudo se centra, de igual modo, no computador e na aplicação; o segundo, o artefacto forma-se pelo resultado de um erro computacional.

Este autor define o artefacto, tanto na sua natureza como na sua função como: um objecto produzido ou modificado pelo homem, pode ser uma ferramenta ou um ornamento; a criação de um conceito; uma observação, resultado ou efeito gerado pela tecnologia através de um erro experimental; uma estrutura ou construção nem sempre presente, mas visível através de uma acção ou agente externo.

Uma embarcação tradicional é um objecto produzido pelo homem, é portanto, um produto artesanal e como defende o autor, “um artefacto é simultaneamente um resultado de um processo, sendo ele o próprio processo através do qual o ser humano constrói o mundo”. Este artefacto transmite conhecimento através da sua estrutura, do processo construtivo, da função, da decoração e da forma criativa do seu criador. É um processo artesanal, feito com sabedoria e arte. Este conhecimento é apanágio de alguns mestres carpinteiros, ele está guardado na sua memória, não existindo registo escrito. Tratando-se de um conhecimento com tendência a desaparecer, fruto das novas tecnologias, dos novos materiais e do desaparecimento das embarcações da laguna, somente o artefacto pode transmitir essa tecnologia remota.

Salienta Owen , que os artefactos são muito mais do que simples objectos, são considerados agentes da mudança, “eles objectivam o conhecimento e a acção humana”. Na sua essência, eles formam um conjunto de imagens através das quais atribuímos significado e funcionalidade àquilo que experimentamos ou que percebemos.

Os historiadores e os antropólogos consideram que, podemos obter mais informação sobre as pessoas e as suas culturas, através dos artefactos. As embarcações são portadoras de uma herança etnográfica muito importante. Owen salienta que o mais importante é que os artefactos forneçam os traços físicos e mentais das pessoas, as suas crenças, atitudes, estrutura cultural e valores. Isto é possível porque as propriedades físicas de um artefacto contêm referências dos seus criadores e utilizadores – “(…) os artefactos são como uma linguagem (…) quando se nos apresenta uma determinada actividade, nós conhecemo-la através dos artefactos, (…) eles são o produto das nossas actividades”. Podemos identificar uma embarcação lagunar pela sua actividade: de transporte de sal, mercadorias ou pessoas; da apanha de moliço; da pesca; do recreio e, ainda, pelos seus artefactos de trabalho ou lazer.

O ser humano medeia as suas actividades através dos artefactos, por esse motivo eles não podem ser estudados como coisas. Eles não têm significado ou valor isoladamente, adquirem-no inseridos numa cultura, relacionando-se com uma sociedade. Estas embarcações evoluem, alteram-se, extinguem-se ou reinventam-se ao longo do tempo, por esse motivo o homem muda constantemente os artefactos de acordo com o uso ou utilidade que lhe queira atribuir.

Os artefactos possibilitam a criação de actividades, desenvolver ideias e práticas culturais. Eles estimulam a criatividade. Owen não deixa de salientar a importância da criatividade, sendo através desta que “(…) os artefactos mudam a nossa percepção do mundo”.


[1] Object artifact, image artifacts and conceptual artifacts: beyond the object into the event., de Smith, Owen F..


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