Publicado por: barcos na ria | 23/10/2009

A arte do saltadouro (taínha) na Ria de Aveiro


A descrição desta arte de pesca praticada na Ria de Aveiro, que se dá pelo nome de peixeira, salto ou saltadoiro, ainda é praticada por uns dos últimos pescadores da região, o Ti Manuel Violas e seu filho Alfredo.

Trata-se de um trabalho de investigação realizado pelo António Cravo, um homem interessado nas lidas do mar e da ria. Interessa-se pelos barcos, pelos homens, pelas artes e pela paisagem. É um investigador interessado e curioso, ama a ria e o mar.

António dedica-se à fotografia e o seu trabalho reflecte o seu gosto e entusiasmo por temas marítimos e lagunares.

A seguinte foto-reportagem começa assim:

Foi uma das experiências mais enriquecedoras deste verão.

Passo na íntegra o seu texto conforme se encontra no site, e recomendo a visita.

link: http://olhares.aeiou.pt/ti_manel_viola_foto3154822.html

“Ti Manuel – armar o curral

O Ti Manel tem 88 anos e ainda vai à pesca. a arte que ele e o filho Alfredo usam responde por diversos nomes: peixeira, salto, saltadoiro.

Se às diferentes formas de pescar se chamam artes, não conheço nenhuma outra a que tão merecidamente se lhe aplique a designação.

Tanto quanto sei, só existem uma bateira com esta arte na ria de Aveiro, a do Ti Manel  Viola na Bestida, Murtosa.

É uma arte de emalhar dedicada prioritariamente à pesca da tainha.

Saímos da Bestida ao meio dia (tínhamos de chegar aos possíveis pesqueiros com a maré a parar, requisito necessário à arte) e regressámos às 19h.
Quando o Alfredo, que ia ao motor, sabia que se aproximava um possível pesqueiro, parava o motor e começava a fazer deslizar silenciosamente a bateira impulsionando-a à vara.
Se via taínhas a voz era : “estou a sentir peixinho” ou “estou a ler a ria e vejo peixinho”. Lançamos a rede pai? e o Ti Manel: tu é que sabes filho.

Se sim, o Ti Manel lançava as redes e o filho ia guiando a bateira de forma a que se constituísse o cerco.

Depois de armada a arte, voltava-se ao princípio da rede (o curral) batendo sempre com a vara na água, do lado de fora da rede, para empurrar o peixe para a malha.
(para que conste: o ti manel nasceu a 26 de outubro de 1921 e o seu nome próprio é manuel maria da cruz)

Enquanto se bate na água, o peixe ou fica emalhado no cerco, não muito, ou vai caminhando em direcção ao curral.

No curral ou fica emalhado na rede de tresmalho que constitui o curral, ou, sendo a tainha um peixe que salta bem para fora de água, tenta passar por cima do tralho da cortiçada saltando, para seu mal, para a manga, rede fixa na horizontal paralelamente ao curral. ao saltar é nela que cai.

Enquanto se vai rodeando o cerco os olhos vão sempre acompanhando o comportamento do peixe, é, acreditem, um espectáculo assistir ao saltar das taínhas e vê-las cair na manta. Vai-se assim calculando a parte visível do lanço.

Depois de chegar ao extremo do cerco, que fica perto do curral, começa-se a colher o cerco ( cerca de 200 metros de rede) até se chegar de novo ao curral.

Nesse dia fizemos 3 lanços, só terceiro justificou a pescaria, não imaginava que na ria houvesse tanta tainha, negrões e garrenos e de tão grandes dimensões.
Desde o montar do curral e da manga, passando depois pelo lançar do cerco, até ao final de cada lanço, decorrem cerca de duas horas.

O Ti Manel e o filho Alfredo têm lugar de venda na praça de Pardelhas e aí vendem aquilo que pescam, por isso só vão à pesca na véspera dos dias de feira, para garantirem peixe fresco ao freguês.

Infelizmente a taínha é um peixe de pouco valor e o Alfredo já disse que quando o pai deixasse de ir pescar, acabaria para ele a pesca.
Disso e de outras coisas mais, falarei nos próximos dias. queria que esta descrição que aqui vos vou deixar, de uma arte que já nem consta na lei e qualquer dia desaparecerá, seja um testemunho para aquilo a que os historiadores chamam “memória futura”.

Distribuição das tarefas durante o lanço.

O Ti Manel é quem arma o aparelho constituído por 3 peças : o curral, a manta e o cerco.
Durante esta fase é o filho Alfredo que impulsiona a bateira, à vara se houver calado para tal, ou remando “à joja”, se a vara não calar.
A bateira tem três escalamões em madeira, que servem de eixo para apoio os remos; dois estão na direcção um do outro, um pouco à frente do traste da proa, para que possa remar um só homem (à joja) e outro um pouco à frente do segundo traste, para que possam remar dois homens.
(o traste não é mais que uma tábua que serve de banco)
O colher das redes os papéis invertem-se: o Ti Manel vai impulsionando a bateira enquanto o filho Alfredo vai colhendo, limpando e safando o peixe.
Depois de todo o aparelho colhido ambos tratam de safar a rede e safar o peixe que ainda está emalhado.

Relatório oficial do regulamento da ria

Pelo seu interesse, reproduz-se o que o “Relatório oficial do regulamento da Ria” de 28 de dezembro de 1912, da responsabilidade do Capitão-Tenente Jaime Afreixo e outros, diz a respeito desta arte.

“Salto, parreira ou peixeira é talvez o mais engenhoso dos aparelhos de pesca interior. só se conhece o seu uso na ria de Aveiro, onde foi inventado haverá meio século, por um pescador de esgueira, sendo logo adoptado pelos da Murtosa, em cujas mãos se tem conservado quase exclusivamente .

Consta de uma cortina de rede – o cerco – guarnecida de chumbeiros e cortiçada, que descreve com os seus primeiros 20 metros de tresmalho, uma espiral, estendendo depois cerca de 400 metros, sem albitanas, em ligeira curva, e dum segundo pano de tresmalho – a manta – que prolonga a rede da espiral em aparador para fora de água e para a parte externa.
A espiral, caracol ou curral, é estacada: pequenos paus com varas de croque da altura de uma braça, intervalados de cerca de 3 metros, fixam as tralhas (cordas onde se prende a rede) superior do cerco e inferior da manta, sustentando-se a tralha superior desta em outras varas um pouco mais altas, cravadas em espiral envolvente.

As porções do aparelho compreendidas nos primeiros intervalos, a contar da origem, têm o nome de 1º arinque e 2º arinque, e constam só do tresmalho.”

Outros links de interesse dos trabalhos do António Cravo, entre os quais, a arte xávega:

consultar para a arte xávega:

http://www.fotolog.com/acravo98

http://www.fotolog.com/poemas_xavega

história da xávega

http://www.fotolog.com/xavega

http://blog.fotolog.com/2008/10/song-of- the-sea

Ti Manuel Violas - arte do saltadoiro (Fotografia de António Cravo)

Ti Manuel Violas - arte do saltadoiro (Fotografia de António Cravo)

Sobre o mesmo tema, e fruto de uma investigação realizada há 24 anos atrás, encontra-se a reportagem da Drª Ana Maria Lopes, autora de obras relacionadas com o mar e a Ria de Aveiro:

–  “Moliceiros – a memória da Ria, Livros Quetzal,1997

–  “Faina Maior – a Pesca do Bacalhau nos Mares da Terra Nova”, Livros Quetzal,1996

–  “Vocabulário marítimo Português e o problema dos mediterraneísmos”. Trata-se da sua dissertação de licenciatura em Filologia Românica, apresentada à Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, em Janeiro de l970, trabalho de pesquisa da autora realizada em 1975, publicado pelo Instituto de Estudos Românicos e editado em separata da Revista Portuguesa de Filologia.

Sobre a obra de Ana Maria Lopes, Gaspar Albino, um autor aveirense, refere “(…) dos livros que Ana Maria Lopes tem vindo a publicar, todos eles a cheirar a maresia, todos eles a saber a sal.”

Link: http://www.prof2000.pt/users/avcultur/GasparAlbino/Pg001100.htm

A autora também mantêm um blog, desde Abril de 2008, relacionado aos temas: museologia, arte e fotografia.

Marintimidades “foi criado para falar das coisas do mar, da ria, de embarcações, de artes, de museologia marítima e de eventos que surjam dentro desta área, publicitando-os, e sobre eles detendo um olhar”, refere a autora no seu blog.

Nesse mesmo blog a autora descreve minuciosamente a arte do saltadouro.Trata-se do “saltadouro do Ti Tainha”. Investigação de campo levada a cabo pela autora a 12 de Agosto de 1985, na Costa Nova, Concelho de Ílhavo.Transcrevo na íntegra a 1ª parte da sua reportagem e aconselho a leitura do restante texto no blog da autora. “De entre as artes – a pesca sempre foi produto de engenho, arte e esforço – que antigamente se praticavam ao longo dos canais da ria, senti desde muito nova uma atracção pela arte do saltadouro. Impressionava-me a complexidade do enredado e do capricho posto na sua botadura, como que construindo um caracol para onde as tainhas espavoridas pelo batuque do maço no fundo da bateira, ou pelo espalmar das varas chicoteando a mansidão das águas, as obrigava a entrar na sua bocarra, enfeixadas no anel, até que, procurando a fuga, saltavam espavoridas aterrando nas abas da caracoleta, entrelaçadas nas malhas que as prendiam, à medida que estrebuchavam para se libertar. Menina e moça, quando ainda havia muitos saltadouros na ria, à hora do jantar, na sala da frente quase debruçada sobre a ria, ouvia-se distintamente aquele som ritmado, rufado, como que chamando a dança ritual.

Nesse tempo, a ria quase beijava o degrau da porta do palheiro; agora que a levaram para longe, para beber com os olhos e encher os sentidos com a sua serenidade encantadora ou apreciar os seus arrufos embravecidos, somos nós que temos de andarilhar para ir ao seu encontro.

Naquele dia, perguntava-me se ainda haveria alguma dessas artes em vias de extinção com o andar dos tempos.
Recebi com agrado a notícia de que o Ti Manel das Tainhas ainda usava o saltadouro.

Pelas 10 horas da manhã, numa segunda-feira de Agosto, fui ao encontro do Ti Manel das Tainhas. Não é muito comunicativo, mas é simpático, afável e lá vai dando algumas explicações. Tem 78 anos, nasceu na Murtosa, mas vive na Costa-Nova, desde criança. Alto, magro, tisnado do sol, um pouco curvado, pelo mister e pela idade, mora, agora, numa recoleta de um palheirinho riscado de azul e branco, na Lomba, de onde desce, todas as matinas, invariavelmente, as escadas do lado sul, que desembocam no largo Arrais Ançã. Com facilidade persigo-o da minha casa, andando no seu encalço e escolhendo o momento mais oportuno para o interpelar.

Veio da Murtosa, com barco e redes, e aqui, na «nossa» ria, sempre se dedicou ao saltadouro. Já o seu pai se dedicava a esta arte, no Verão.

Tinha sabido pelo Miguel que a bateira do Ti Manel, a velha e inconfundível bateira, de bica bem levantada, a Preta, por ser embreada a negro, não estava amoirada no local habitual.
Procurámo-la e, um pouco mais a sul, encontrámo-la. Ao nosso chamamento, libertou a Preta da estaca e com um leve impulso abicou à margem, para nos falar.

O Ti Manel recebeu-nos afavelmente. Muito embora inquisilando o meu interesse pelo assunto, pôs-se inteiramente à minha disposição para me elucidar sobre a técnica e as manhas postas na arte de empalmar as tainhas saltadoras.

O Ti Manel tinha saído de casa às seis da manhã e ia esperando pela maré, como se as horas, para ele, não contassem. Batiam as dez, na torre da Igreja da Gafanha do Carmo.”

Link: http://marintimidades.blogspot.com/2009/08/o-saltadouro-do-ti-tainha-i.html

Ti Taínha -fotografia do arquivo da Drª Ana Maria Lopes (blog maritimidades)
Ti Taínha -fotografia do arquivo da Drª Ana Maria Lopes (blog maritimidades)


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