Publicado por: barcos na ria | 20/01/2009

embarcação como artefacto


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Embarcação como artefacto

Um objecto é uma coisa material ou determinada, é tudo aquilo de que o homem se pode ocupar e ao qual vai dirigida uma acção ou um sentimento.
Um artefacto é entendido como um objecto feito pela mão do homem, que fornece informação sobre a cultura do seu criador e usuário. Ele pode sofrer mutações ao longo do tempo, assim como a classificação que lhe é dada pode alterar com o tempo. Os objectos criados pelo homem na sociedade moderna também são considerados artefactos culturais.
Uma embarcação, ou barco, é um artefacto construído pelo homem. Para tal são utilizados os mais diversos materiais. A construção envolve vários p
rincípios da física e da geometria e tem como objectivo final o de flutuar, ou seja, navegar no mar, rios e lago/a, independente do tamanho, da forma ou do sistema de propulsão. A função deste artefacto é o de transportar bens e pessoas e de facultar a prática de actividades de lazer, pesca.
As embarcações encontram-se entre as mais antigas e importantes criações tecnológicas do homem. Este soube aproveitar os materiais existentes nas regiões onde habitava, trabalhando-os e moldando-os às suas necessidades. Da diversidade de materiais e tecnologias resultaram vários tipos de embarcações, dependendo de cada cultura ou região.

O estudo do objecto ou artefacto, neste caso concreto uma embarcação, pressupõe a análise de um discurso, por ele evocado enquanto representação, invenção ou re-invenção de uma cultura e região. Como refere Clara Sarmento numa das suas obras sobre o barco moliceiro, em relação a essa embarcação tão “sui generis” da região: “o processo através do qual os objectos adquirem capacidade de significação está relacionado com valores e condicionantes sócio-culturais que os transformam em veículos de afirmação de uma entidade regional.” O objecto/artefacto transmite informação, ele torna-se num veículo da comunicação. Se ele comunica através da sua imagem, ele “atravessa a (sua) opacidade inoportuna”, como refere Michel Foucault . Pode-se dizer que uma embarcação, produto da criação humana, é um artefacto cultural, pleno de significado, contêm aspectos etnográficaos, herança de uma época, de uma região e de um povo, ele faz parte de um processo cultural. Segundo Umberto Eco, os processos culturais são processos de comunicação, atravessados por uma multiplicidade de “subcódigos”.
Este artefacto comunica através da forma, da decoração, do processo construtivo, do material empregue, da função para a qual foi pensado, e também p
ela alteração dessa mesma função, resultado das mudanças tecnológicas, ambientais, naturais, económicas, e sociais.
No caso do moliceiro, este transmite várias informações sobre o seu passado, as origens, a sua lenta evolução, que apesar de ter sofrido poucas alterações estruturais, alterou drasticamente a sua função ou actividade – de apanha do moliço para passeios turísticos.

A construção destas embarcações/artefacto são determinadas pela época, pelas necessidades de um povo e de uma região. Estão, ainda, condicionadas aos materiais existentes na região, tecnologia, às ferramentas disponíveis e ainda aos seus criadores.
No acto produtivo destes artefactos a criatividade tem sido sempre crucial, tanto na resolução de problemas tecnológicos como de navegabilidade, ou ainda de natureza funcional. Através da criatividade podem encontrar-se soluções inovadoras. Como refere John Hawkes , a noção de criatividade já não se atribui somente às artes, ela deve ser aplicada à resolução de problemas do ser humano. ” A inovação, criatividade, pensamento, introspecção, intuição e imaginação são meios que descrevem o processo de invenção de novos padrões (…)”

Etelvina Almeida


Responses

  1. Segundo as pesquisas que efectuei, efectivamente o barco moliceiro era usado em toda a região ribeirinha, desde o norte da Ria – Ovar – até ao sul – Mira, com a função de apanha do moliço. Também encontrei referências a outras tipologias de embarcações, como bateiras, mercanteis, as patachas e os vougas, tendo como funções, a pesca, o transporte, a apanha das algas e o recreio, respectivamente. O barco moliceiro apresenta características muito peculiares, como a proa elevada e curva e o colorido dos painéis com as suas legendas. No entanto, nalgumas regiões da Ria outras embarcações, com a forma do moliceiro mas de menores dimensões, foram usadas para outras funções. O moliceiro de Canelas, a “erveira”, era utilizada para o transporte de ervas e de gado. Este moliceiro era todo negro. Tenho conhecimento de que existia, também, uma outra embarcação negra, com uma forma parecida à do moliceiro, na região de Vagos, a “matola”. Sobre esta embarcação tenho algumas dúvidas, deduzo que existiam dois tipos de barco “matola”. A que está exposta no museu, é uma embarcação pequena, com forma de bateira, toda negra, acompanhava o moliceiro na sua actividade da apanha do moliço. Auxiliava na actividade porque podia navegar nos esteiros mais estreitos, onde o moliceiro não entrava.

    Obrigado pelo comentário!
    Agradecia que me facultasses o nome do cais que referes e a data da respectiva festividade.
    Estou a pesquisar sobre a importância de alguns cais ao longo da Ria…
    Este parece ser importante, para existir uma festividade …
    Até breve!
    Etelvina

  2. Parabéns pelo trabalho, agora já muito mais completo e a ficar muito interessante. Fico na dúvida quando referes que o moliceiro era usado de Ovar a Mira. Queres dizer que era usado sobretudo aí? Ou só aí? É que os meus antepassados, da zona sul de Vagos, deslocavam-se ali entre Vagos e a Quintã, com os carros de bois, a carregar o moliço para fertilizar as terras (ainda lá existe a zona do cais e faz-se uma festa anual dos moliceiros).
    Bom trabalho.
    Manuel


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